Os charlatões não entendem o mundo

Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on whatsapp
Share on telegram
Share on pinterest

Uma crítica às práticas de disponibilização de conteúdo sem custo financeiro

É cada vez mais comum ver pessoas que conhecemos ou não oferecendo algum tipo de conteúdo no vasto universo da internet. Seja um curso, um eBook gratuito, um webinário. São diferentes assuntos, mídias, formatos e graus de profundidade. Se o doutor em ciência da informação Carlos Nepomuceno estiver correto, então isso é algo que se intensificará cada vez mais. Segundo aponta (2018, p. 46): “(…) quanto mais complexo for o Planeta Sapiens, mais a comunicação terá que se descentralizar e as decisões serem distribuídas para que possamos, ao longo do tempo, viver com mais qualidade.” Isso fica evidente para nós aos percebermos o fenômeno das plataformas de streaming ou a quantidade de lives que vêm acontecendo nas redes sociais, por exemplo.

O problema é que, assim como em qualquer outra área, o desenvolvimento de infoprodutos [1] está cheio de pessoas querendo se aproveitar das estratégias que estão disponíveis de forma mal intencionada.

1. A estratégia da captura

Por trás dessa vasta disponibilização de materiais e conteúdos, existem motivações das mais diversas. Falando especificamente daquilo que se encontra para além das redes sociais, tal qual um eBook ou uma série de aulas, geralmente os infoprodutores pedem algo em troca pelo que estão oferecendo: o email do interessado, a participação em determinada comunidade, algo nesse sentido. De forma generalizada, isso é comumente conhecido como “captura de leads. [2]

Sem querer fugir do foco do texto, acho importante fazer aqui uma observação: considero esse termo, assim como a ideia à qual ele remete, muito inapropriado. Se você tiver um pouco de perspicácia, vai perceber que aqui começa a crítica que vou finalizar, com maior ênfase, mais na frente. Usar o termo “captura” traz uma conotação um tanto quanto antiquada. A impressão é que a pessoa que está do outro lado, fazendo o download do material, nada mais é do que uma vítima, e realmente muitas pessoas entendem dessa forma. Por outro lado, quem está de cá parece dar uma gargalhada maléfica e dizer “mais uma captura feita!”. Penso que precisamos redefinir esses termos e a concepção que os fundamentam.

Talvez eu esteja romantizando demais, mas pessoa que se dispõe a baixar seu material não é alguém a ser capturado, como se tratasse de um jogo predatório, mas uma conexão, um novo participante da sua comunidade. O pensamento tem que ser esse! Algo mais humano, mais orgânico, mais horizontal. 

Mas voltemos à questão estratégica. 

Já vi algumas pessoas dizerem que tal método é antiquado ou desonesto. Será? Sinceramente, não acho que o problema está na estratégia em si, mas na forma como algumas pessoas a usam, o que acaba, consequentemente, banalizando ou tornando-a pouco receptiva aos usuários que já passaram por situações como essas. 

Digo que o problema está na “forma” porque, uma vez que essa abordagem é feita de forma sincera e transparente, não existe nenhum problema intrínseco. O infoprodutor disponibiliza determinado conteúdo e solicita algo em troca. O público, por sua vez, concorda ou não com esses termos. No caso de concordar, há uma troca justa. Ele recebe aquilo que desejava e oferece algo em troca, como o seu email, concordando em receber possíveis anúncios ou novos materiais. A troca é justa quando feita de forma honesta.

No entanto, pode haver um desequilíbrio: quando a promessa do infoprodutor não condiz com aquilo que ele entrega. Aqui, o usuário pode se sentir enganado ou, no mínimo, decepcionado. Com isso não quero dizer que todo material tenha que ser complexo, profundo e hiper elaborado. Quero dizer que a promessa deve ser compatível com a entrega. Seja algo simples, seja algo complexo. As pessoas precisam ter clareza sobre o que receberão, sobre o objeto da troca que estão fazendo. 

2. Tipos de Produtores

Quando falamos sobre produtores de conteúdo, ou infoprodutores, acredito que existam quatro tipos de pessoas:

  1. A primeira é aquela que possui alguma limitação, mas se propõe a oferecer algo. Assim, acaba tendo um resultado raso ou superficial. Nesse caso, não vejo problema algum, desde que ela apresente o material de tal forma. Ela está sendo honesta ao entregar aquilo que de fato sabe, ainda que este saber seja limitado.

  2. O segundo tipo, tal qual o primeiro, possui alguma limitação em termos de conhecimento ou bagagem. A diferença é que, ao contrário do caso anterior, quer aparentar algo que não condiz com a realidade. Quer se passar por um expert no assunto, mas não tem profundidade para isso. Esse tipo é fácil de perceber! 
  1. Um terceiro tipo de pessoa são aquelas que verdadeiramente dominam ou tem certa autoridade em determinado tema, e produzem algo coerente com tal. O conteúdo delas será o melhor e mais bem produzido, por razões óbvias.
  1. O quarto tipo, por fim, é o pior de todos: aquele que até tem um bom conhecimento sobre algo, talvez até seja uma autoridade no assunto, mas isso não se reflete nos materiais que ela entrega. O público espera algo, mas o material recebido não é compatível com a promessa feita pela pessoa em questão. A esse tipo daremos o carinhoso nome de “charlatão”. 

Quando eu digo “compatível com a promessa”, tenho em mente dois pontos:

  1. Promoção: se trata da comunicação feita a respeito daquilo que se está oferecendo. Um infoprodutor pode desenvolver uma material introdutório ou para completos leigos, por exemplo.  Não há nenhum problema nisso, pelo contrário. Iniciativas como essas são muito bem-vindas. Mas isso precisa ficar claro! É preciso ter transparência sobre a profundidade do material e a quem ele é direcionado.

  2. Execução: se trata da elaboração do infoproduto em si. É muito comum nos depararmos com materiais no quais mais da metade do tamanho (e aqui não só produtos digitais, mas físicos também, como livros impressos) é uma evidente enrolação. Isso se difere, por exemplo, de uma introdução de conceitos ou reflexão inicial de fundamentação. Uma coisa é enrolação, outra é uma gradação conceitual, isso é, uma curva de aprendizado para dar fundamentação ao público que não está familiarizado com aquele assunto antes de abordar questões mais específicas ou que demandem algum conhecimento prévio.

Poderíamos fazer uma investigação mais aprofundada sobre o que motiva uma pessoa que tem conhecimento, que tem bagagem ou que é autoridade em determinada área a compartilhar algo de forma desonesta [3].

Uma das razões, talvez, seja o receio de “dar de graça” uma informação valiosa ou à qual se empenhou muito esforço para ter. Se o motivo for esse, é preciso lembrar que, na realidade, isso não está sendo dado de graça verdadeiramente. Em troca, se recebe algo da parte do usuário, como explicado no primeiro tópico sobre a “estratégia de captura”. 

Ainda que isso seja disponibilizado sem receber objetivamente nada, existe, de forma subjetiva, uma troca, pois isso irá gerar engajamento, comentários, compartilhamentos. De todo modo, há um ganho por parte do produtor, ganho esse que pode ou não ser otimizado, conforme a estratégia adotada (ou a falta dela).

Mas seja qual for a motivação, temos um grande problema.

3. O mundo conectado

O autor Philip Kotler nos faz um importante alerta (2017, p. 28): “Do ponto de vista da comunicação em de marketing, os consumidores não são mais alvos passivos; estão se tornando mídias atrativas de comunicação.” Isso significa que o público não é mais apenas um receptor, como em tempos passados, mas também carrega uma mensagem, é um espécie de “mídia”. 

Essa possibilidade se dá graças à era da conectividade em que estamos vivendo. Kotler nos mostra que, para além da conectividade móvel, que possibilita deslocamento por meio de dispositivos móveis, e da conectividade experiencial, que possibilita a interação entre marcas [4] e público, temos agora a conectividade social, que possibilita a formação de comunidades (2017, p. 36-37).

A consequência disso é que, uma vez que a sociedade se organiza por meio de uma conectividade social, gerando comunidades e redes, a opinião do indivíduo não é mais um elemento privado. A satisfação ou insatisfação com algo será compartilhada nas conexões das quais ele faz parte. 

Aqui vale ressaltar que esse compartilhamento não é só de algo envolvendo um empenho financeiro, como um produto que foi comprado ou um serviço prestado. Pode ser também com relação a uma música, uma série, uma entrevista ou… um infoproduto! 

Portanto, é um erro achar que um material desonesto terá uma boa recepção. É uma falta de sapiência não perceber os desdobramentos negativos, para além das questões éticas, que há em tentar subestimar o público oferecendo-lhes algo aquém do mínimo esperado.

Os charlatões não entendem o mundo. Não entendem as implicações de vivermos em uma era de conectividade. 

4. Nível baixo

Se os nossos queridos charlatões fazem tudo isso que falei, mas então por que eles ainda continuam dando certo? Por que várias e várias pessoas consomem seus infoprodutos e, em alguns casos, até os compartilham ou difundem entre seus contatos. Qual é a mágica?!

Caberia um outro artigo só para discutir essa questão. Mas vou tentar resumir em poucas palavras as minhas suspeitas.

O primeiro ponto, talvez o principal, pode ser porque, geralmente, nivelamos por baixo. Estamos mal acostumados, achando que “qualquer conteúdo vale a pena”. Pensamos que de qualquer material, por pior que seja, há algo útil a ser extraído. Essa premissa não é necessariamente falsa. Mas aí entra o segundo ponto.

Além de nivelar por baixo, acabamos desvalorizando nossa “moeda de troca” dessa relação. Acabamos oferecendo dois bens que, apesar de intangíveis, são valiosos: nosso email, por exemplo, e nosso tempo. Entregamos algo muito importante para receber algo pouco importante. Uma relação desequilibrada. 

Não acredito que as pessoas que usam e abusam de práticas ruins abrirão mão delas tão facilmente, afinal, elas ainda funcionam em uma análise bem pragmática. Assim, o antídoto está na conscientização do público, das pessoas que consomem esse material. Também não acredito que isso vá acontecer tão cedo, mas espero que aconteça em algum momento.

Espero que tenhamos infoprodutos cada vez melhores, que elevemos o nível, que o filtro social funcione de forma cada vez mais criteriosa e seletiva, não dando margem para os aproveitadores de plantão. 

Concluo explicitando que meu objetivo com esse texto é simplesmente trazer à tona uma reflexão que considero pertinente, iniciar um questionamento, acender uma faísca. Se isso acontecer, já estarei feliz.


Referências:

KOTLER, Philip. KARTAJAYA, Hermawan. SETIAWAN, Iwan. Marketing 4.0: do tradicional ao digital. Rio de Janeiro: Sextante, 2017.

NEPOMUCENO, Carlos. Administração 3.0: por que e como “uberizar” uma organização tradicional. Rio de Janeiro: Alta Books, 2018.


Notas:

[1] Um conteúdo digital que pode ser vendido ou distribuído por meio de diferentes formatos, como eBooks, cursos, podcasts etc.
[2] Leads são pessoas que sinalizaram algum interesse no serviço ou produto oferecido. São potenciais clientes, mas ainda sem uma intenção de compra clara.
[3] A exemplo do que apresentei no tópico 2, uso o termo “desonesto” para se referir a um material cujo conteúdo não condiz com a expectativa gerada no público.
[4] Como “marcas” me refiro a qualquer pessoa, empresa, iniciativa ou organização que ofereça algo a alguém. Pode ser um influenciador ou uma loja física.